Quando o amor de uma fã e a fé de uma mãe sobrevivem até a um tiro na boca

O dia era 3 de julho de 2000, uma segunda-feira comum para muitas pessoas. Não para Gerusa Helena e sua família. Essa é uma história que se você ouvisse por aí nos falaria que era mentira ou até mesmo história de novela. Ela é sobre uma jovem que sobreviveu a um tiro na boca, a queima roupa, após reagir a um assalto, na Avenida Jovita Feitosa, em Fortaleza, poucos metros da sua casa.

Essa poderia ser uma história triste, mas não é, ao contrário, é de muito amor e fé. Gerusa Helena era uma adolescente de 17 anos, fã de axé e do Xandy do Harmonia do Samba. Até aí, normal né? No ano 2000, o marido de Carla Perez e o ritmo viviam momentos áureos no País. Como qualquer adolescente, a nossa personagem tinha uma alegria e ansiedade típica da idade. O Xandy vinha para Fortaleza, era a oportunidade de encontrar pela primeira vez o ídolo. Mas o destino não quis assim. Na verdade, Deus não quis assim.

Geórgia (irmã), Mara Rúbia (mãe), Gerusa e Geysa (irmã)
Geórgia (irmã), Mara Rúbia (mãe), Gerusa e Geysa (irmã)

Apaixonada pela mãe, Gerusa sempre foi uma filha obediente. Mas naquele 3 de julho, ela não foi. Em uma conversa informal com a prima, a irmã e a mãe, Gerusa pedia para ir comprar os ingressos do show que aconteceria no sábado seguinte, em uma casa de show na Capital. A mãe, sempre calma e compreensiva, tentou dosar a ansiedade da filha caçula e pediu que ela esperasse retornar do supermercado.

Gerusa ficou sem responder. A garota esperou a saída de sua mãe e com a prima resolveu ir comprar os ingresso em uma farmácia na Avenida Bezerra de Menezes. Com sua genitora se deslocando para fazer as compras, ela acenou dizendo que iria comprar e voltava para casa. Mara Rubia, a mãe, olhou, ficou calada e seguiu seu caminho para o supermercado.

O tiro

Ela guarda a bala até hoje (FOTO: Lyvia Rocha)Com a prima Joelma Silva, ela foi comprar os ingressos e assim o fez. As entradas para o show estavam em mãos e o retorno para casa marcaria a sua trajetória pessoal para sempre.

“Passa os ingressos e o celular”, assim falou um dos assaltantes. Gerusa não entendeu e disse: “Eu. Passar o meu celular? Eu mesmo não”, e seguiu o caminho com passos apressados.

Mas o que ela não esperava, é que pouco mais a frente, outro assaltante a abordaria e sairia de trás do poste apontando uma arma para sua boca. A reação de Gerusa foi gritar e a do bandido: atirar.

Clarão. Sangue. Queda. E o desespero da prima. Essas foram as primeiras observações pós tiro de Gerusa. Mas o que estava acontecendo? “Eu desmaiei? Levei um tiro?”. Foram alguns segundos de incompreensão.

Mas a multidão que se formava apavorada e o sangue que jorrava, fez com que rapidamente ela concluísse que estava ferida. A falta de ar que começava a lhe angustiar, logo foi cessada com o que ela afirma que foi um anjo que surgiu naquele momento, para levantar a sua cabeça e ajudar a respiração. O anjo no caso, era um homem conhecido do bairro, “Seu Pirulito”.

Com toda a movimentação, a gravidade do fato que ela já começava a entender, apenas um pensamento vinha à sua cabeça: “Eu não vou morrer, a minha mãe não merece passar por mais um sofrimento, e o pior de todos, enterrar um filho”, relembrou em entrevista o Blog De Tudo Um Pouco Ce.

“A fé da minha mãe me salvou”

Um tio que morava próximo chegou para acompanhar até o hospital. Ela não “apagou”. Viu todos os procedimentos sendo realizados. As dores no pescoço começaram. Ela ainda não sabia, mas o tiro atingiu a 2ª vértebra da sua coluna. Além disso, tinha perdido sete dentes e tinha que costurar a língua.

Sua mãe descobriu o fato ainda no supermercado. Com uma fé inabalável, não houve desespero, mas sim queria saber da situação e ir ver como estava a sua filha, em meio a boatos das pessoas que a conheciam.

Chegando ao hospital, no primeiro encontro entre mãe e filha, foi entre olhares. Gerusa se sentiu acolhida e protegida. A mãe disse que estava com ela e tudo daria certo. Os médicos não pensavam de uma forma tão simples desta maneira.

O caso era grave e complicado. Um dos médicos chegou a dizer que o risco de Gerusa ficar tetraplégica era eminente. Foi nesse momento que Mara Rúbia entregou sua filha a Deus e a Nossa Senhora de Fátima.

“Eu só quero minha filha de volta se for para ser como era antes. Se não, Deus a poderia levar”, contou Gerusa. Para muitos podem ler isso, pode achar que foi um ato de egoísmo da mãe. Não para a filha que afirmou ter sido a maior prova de amor que sua mãe poderia ter feito.

“Ela me conhecia e me conhece tanto que sabia que eu nunca iria suportar uma vida em cima de uma cama. Foi a maior prova de amor que ela poderia ter me dado. Abrir mão de mim, para me ver bem, do jeito que eu sempre quis, que eu sempre fui. Amor também abrir em alguns momentos”, revelou emocionada Gerusa.

A partir de então, sua recuperação rápida foi surpreendo os médicos de um hospital particular de Fortaleza. Após 3 dias do tiro, ela saia da Unidade de Terapia Intensiva, sem precisar passar por nenhuma cirurgia.

Mas os dias no hospital não eram fáceis. Gerusa sentia dor. Diferente da UTI, no apartamento, os remédios não faziam efeito. Com o colar cervical e sem fazer movimentos bruscos, ela passava os dias deitada se recuperando, mas com muita fé que iria sobreviver e sair melhor do que era depois daquilo.

Exatamente no dia 13 de julho, Dia de Nossa Senhora, ela voltava para casa. Com uma recepção, semelhante a de um ídolo como Xandy, uma multidão a aguardava ansiosa.

21 dias depois após sofrer o tiro, foi realizada uma missa em ação de graças na área da sua, agradecendo, a sua recuperação. Ela estava bem, recebeu todas que a cumprimentavam. Mas no dia seguinte, ela teve uma piora.

Sentindo um desconforto na garganta, ela retornou ao hospital. “Era uma coisa bastante incômoda. E por me sentir mal, achei melhor, voltar ao hospital, chegando lá, a cara de espanto dos médicos, era a bala que queria sair”, contou.

A bala que atingiu a 2ª vértebra da coluna, “passeou” até a garganta de Gerusa. Os médicos não sabiam o que ia fazer, mas optaram por uma delicada cirurgia que poderia trazer sequelas pela proximidade com a médula óssea e com o risco da bala descer para outro órgão.

Gerusa retornou para a casa e mesmo preocupada com o novo retorno ao hospital, ela ase conformou e começou a arrumar as coisas para o procedimento cirúrgico que aconteceria no dia seguinte.

Mas uma sensação de sufocamento começou a perturbá-la. Sem saber o que fazer, ela apenas apontava para a garganta. Já com um fôlego por fim, a mãe no ato de desespero, pois ela não poderia fazer movimentos bruscos pela lesão na coluna, a mãe bateu na cabeça de Gerusa e o improvável aconteceu: ela cuspiu a bala.

17 anos depois Gerusa conta feliz essa história. Sem traumas, ainda com algumas dores, as únicas sequelas que ficaram, mas com o espírito e coração renovada de que, deve-se valorizar as pequenas coisas da vida, ela agradece todos os dias a Deus, mas principalmente ao amor e fé de sua mãe. “O amor da minha mãe me salvou”.

Destino

17 anos depois, Gerusa teve enfim a oportunidade de assistir ao vivo um show do Harmonia do Samba. Mas nem tudo é fácil para essa mulher de sorriso fácil.

Por um problema na organização do evento, o show da banda baiana foi cancelado. Contudo, alguns dias depois uma nova data de apresentação foi marcada.

Mas a mãe de Gerusa ficou receosa e só liberou depois que a filha esclareceu onde seria o show e que horas iria voltar. Até porque ela nunca mais desobedeceu sua mãe.

Enfim, o encontro, mesmo que distante, com Xandy aconteceu. “Fui na hora combinada, assisti apenas o show dele, curti bastante, mas assim que ele saiu do palco, voltei assim como tinha dito a minha mãe.

E o próprio Xandy, ao saber da história de vida da sua fã mega especial, mandou um recado a ela.

Xandy manda recado para Gerusa:

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